Waterless Beauty - skin care sem água é mesmo mais sustentável?
Atualizado: há 7 dias

Muitos de nós estão verdadeiramente interessados em sustentabilidade, em promover um mundo melhor, com isso, o problema da escassez de água torna-se uma grande questão global. Segundo a Unicef, cerca de 35% da população mundial não tem acesso à água potável e, em um futuro próximo, mais da metade poderá sofrer dificuldades hídricas.
Por essa razão, a proposta de produtos livres de água soa muito interessante e imediatamente nos induz a acreditar que essa é a solução para tais problemas ambientais.
Sem dúvida, essa nova maneira de desenvolver produtos traz muitos benefícios, mas utilizar a água de maneira eficiente não é tão simples quanto parece. Além da conscientização por parte das empresas, também há uma grande necessidade de educar o consumidor sobre as melhores práticas de uso desse recurso natural tão precioso.
ÁGUA EM COSMÉTICOS É RUIM? NÃO SERVE PARA NADA?
Mito 1: água só serve para reduzir custo
Vamos começar por um dos principais argumentos apresentados por quem diz que a presença de água em um produto cosmético tem como única finalidade diluir a fórmula do produto e, assim, reduzir custos de produção, aumentando as margens de lucro.
Se por um lado é verdade que a água pode reduzir o custo do produto - já que, em geral, tem um custo menor quando comparado aos outros ingredientes - por outro, a escolha dela em uma formulação quase nunca é por esta razão, mas sim por melhorar o desempenho geral do produto, facilitando sua aplicação, proporcionando atributos sensoriais mais prazerosos e, especialmente, favorecendo a performance por ser um veículo que carreia muitos nutrientes e vitaminas fundamentais para a pele.
E como sabemos, nosso corpo precisa da água para sobreviver, nós não conseguimos viver apenas à base de produtos gordurosos, como ceras, óleos e manteigas, embora eles sejam igualmente vitais, como nós já falamos nesse post.
Além disso, ainda tem mais algumas funções que a água cumpre melhor, como limpeza e hidratação por umectação, além de entregar muitos benefícios promovidos por ativos que possuem melhor solubilidade nela, tais como ácido ascórbico (vitamina C na forma pura), niacinamida (vitamina B3), D-pantenol (pró- vitamina B5) e muitos peptídeos e ácidos, por exemplo, substâncias altamente eficazes que tratam todo tipo de problema de pele, como manchas, rugas, acne, irritação, ressecamento, etc. Ingredientes que você não vai querer ficar sem, não é mesmo?
Mito 2: água dilui o produto e isso é ruim
Outro ponto é a questão da diluição, que nem sempre é algo ruim, pois muitos ingredientes precisam, de fato, ser diluídos para não agredir a pele, caso dos ácidos e das vitaminas C e B3, por exemplo, que não devem ser aplicados puros e ou em concentrações elevadas, pois podem causar irritações e sensibilizações severas.
Pureza nem sempre é sinônimo de eficácia, afinal, a concentração certa é um fator determinante na equação de cuidados com a pele. A frase ‘quanto mais melhor’, nem sempre vale aqui.
Mito 3: produtos sem água são mais suaves para a pele
Produtos sem água também podem conter substâncias irritantes, e na realidade isso acontece muito mais do que você imagina. Muitos cosméticos anidros (sem água) também contém conservantes, por exemplo, especialmente os que têm contato direto com água, como é o caso de produtos para banho, e isso por si só já é suficiente para facilitar contaminações e necessitar da presença de conservantes.
Produtos sem água também não estão livres de emulsificantes, surfactantes, corantes e fragrâncias (sintéticas e naturais), ingredientes de potencial reconhecidamente sensibilizante, podendo, portanto, oferecer os mesmos riscos dos produtos com água em sua composição. Bons exemplos disso, são shampoos e condicionadores em barra, que costumam ter todos esses ingredientes em suas fórmulas.
Mito 4: todo produto sem água é livre de embalagens plásticas
Também não são todos os cosméticos sólidos que podem livrar-se das embalagens, já que há muitos produtos que, apesar de serem waterless, ainda precisam deste item, caso dos batons, desodorantes, maquiagens e protetores solar em formato stick, por exemplo, com os quais o contato direto com as mãos não é recomendado ou desejado, a fim de evitar contaminações e facilitar a aplicação.
E aqui é importante deixar claro que, embora a ausência de água em um produto dificulte a contaminação, ela não extingue por completo essa possibilidade. A própria umidade ambiente já pode ser suficiente para a proliferação de microrganismos, ainda mais em produtos ricos em insumos naturais, que servem como fonte de alimento para os microrganismos.
Há ainda mais uma consideração: muitas vezes até mesmo os formatos em barra, que dispensam embalagens plásticas primárias fornecidas pelo fabricante, ainda podem necessitar de outras embalagens para armazenamento, como saboneteiras e porta shampoos e condicionadores sólidos.
Nestes casos, é muito importante que nós consumidores façamos escolhas mais conscientes e optemos por materiais mais sustentáveis, como o alumínio, por exemplo.
Embora cerâmicas, argilas e madeiras, também sejam opções ecologicamente amigáveis, por serem materiais mais pesados, aumentam a pegada de carbono produzida no transporte, podendo ser ainda mais poluentes do que produtos que contém água e embalagens convencionais, que podem ser mais leves.
Mito 5: todo produto sólido é mais concentrado
Isso também não é verdade. No caso de produtos sólidos é muito comum o uso conjunto de ceras que, além de serem fundamentais para a performance, também funcionam como diluentes gordurosos sólidos.
Mas de novo: alta concentração nem sempre significa alta eficácia e bons resultados. Sabonetes e shampoos em barra com elevadas concentrações de tensoativos (agentes de limpeza), costumam ser bastante agressivos para a pele e os cabelos, causando ressecamento e irritações.
Além disso, nem sempre um ativo ou substância funcional, como as manteigas vegetais e os agentes de limpeza, por exemplo, conseguem, sozinhos, promover a consistência e o formato sólido ideal do produto, sendo, na esmagadora maioria das vezes, necessário o auxílio das ceras, não podendo serem, por isso, considerados puros ou concentrados.
E QUANTO AO IMPACTO AMBIENTAL?

Como já dissemos acima, qualquer produto sólido para o qual seja possível dispensar a embalagem plástica, poderá ser melhor para o meio ambiente, pois gerará menos lixo de difícil degradação na natureza.
Ainda assim, generalizar não é o ideal, pois um produto sem água pode nem sempre ser a melhor opção quando se pensa em impactos ambientais.
Muitas vezes um produto sem água na formulação, requer o uso de uma quantidade grande de água durante o processo de fabricação, é o caso dos produtos sólidos ou pastosos compostos por ceras e manteigas, como batons, pomadas, balms, shampoos e condicionadores em barra e outros produtos em formato bastão, pois requerem aquecimento para serem derretidos, processados e envasados e, normalmente, o veículo utilizado para esse aquecimento é a água, que não é reaproveitada e vai diretamente para o esgoto.
Além do processo de fabricação, também precisamos considerar um fator que a maioria de nós se esquece: a forma como nós consumidores utilizamos a água para o enxágue de alguns cosméticos como shampoos, sabonetes e demaquilantes, por exemplo.
O que você acha que gasta menos água: limpar o rosto com um demaquilante à base de óleos e depois enxaguar, ou usar uma água micelar que dispensa a etapa do enxágue?
Em termos de economia de água, certamente a água micelar leva a melhor, pois toda a água usada no processo de fabricação do produto está contida na fórmula (já que é um produto que, geralmente, não requer aquecimento em seu processo), da qual você vai usar apenas alguns poucos mililitros, sem a necessidade de um enxágue posterior, que poderia gastar até alguns litros de água.
Há também a questão da forma de uso dos produtos sólidos, que alega-se durar mais do que um produto líquido, mas isso é muito relativo, pois tudo depende da forma como cada pessoa vai usá-los. Muita gente consome produtos em barra, sejam sabonetes ou shampoos, em tempo bem mais curto do que suas versões líquidas.
CONSCIENCIA NO USO E NA ESCOLHA, ESSE É O SEGREDO
Com isso você pode perceber que não importa se um produto de beleza contém água ou não em sua formulação, é praticamente impossível ser 100% livre dela. No entanto, isso não significa que não devemos adquirir ou criar produtos sem água, muito pelo contrário. Sempre haverá espaço e necessidade dos produtos waterless no mercado, pois como já mostramos acima, também possuem vantagens tanto para o meio ambiente, quanto para nossa pele.
Dessa maneira, fica mais fácil perceber que a solução, em termos de sustentabilidade e economia de água, não é simplesmente livrar-se da água do produto, mas é buscar avaliar toda a cadeia que envolve sua criação, desde a escolha dos ingredientes naturais - que podem consumir muita água para seu cultivo, caso do abacate e seus derivados, por exemplo - passando pelo transporte, eficiência do processo fabril, forma de uso, escolha das embalagens e até o destino final destas, se poderão ser reutilizadas ou recicladas, por exemplo.
A essa metodologia de estudo, nós damos o nome de Análise de Ciclo de Vida ou Life Cycle Assessment (LCA), em inglês.
A boa notícia, então, é: você não precisa deixar de usar aquele tônico, água micelar ou hidratante de que você tanto gosta, pois eles podem estar contribuindo tanto quanto, ou até mais, com a sustentabilidade do que outros produtos livres de água em sua composição.
Informe-se, converse com suas marcas preferidas. Escolha com consciência.
Este post tem como objetivo apenas desmistificar algumas ideias e incentivar uma reflexão sobre o uso sustentável da água em cosméticos. Não se trata de uma comparação de eficácia entre produtos com ou sem água, pois ambos podem ser excelentes — ou deixar a desejar. Tudo depende da formulação, da qualidade dos ingredientes e do compromisso de toda a cadeia produtiva.
REFERÊNCIAS:
Companhia Ambiental do Estado de São Paulo. (s.d.). O problema da escassez de água no mundo. Águas Interiores. https://cetesb.sp.gov.br/aguas-interiores/informacoes-basicas/tpos-de-agua/o-problema-da-escasez-de-agua-no-mundo/
United Nations. (2026). Water. Global Issues. https://www.un.org/en/global-issues/water
Liu, M., Zhu, G., & Tian, Y. (2024). The historical evolution and research trends of life cycle assessment. Green Carbon, 2(4), 425–437. https://doi.org/10.1016/j.greenca.2024.08.003




Conteúdo muito esclarecedor! A coisa é mais complexa do que eu imaginava, mas bora trabalhar pela sustentabilidade. 🌿