Waterless Beauty - skin care sem água é mesmo mais sustentável?


Foto por Misha Novak em Unsplash

Muitos de nós estão verdadeiramente interessados em sustentabilidade, em promover um mundo melhor, com isso, o problema da escassez de água torna-se uma grande questão global. Segundo a Unicef, cerca de 35% da população mundial não tem acesso à água potável e, em um futuro próximo, mais da metade poderá sofrer dificuldades hídricas.


Por essa razão, a proposta de produtos livres de água soa muito interessante e imediatamente nos induz a crer que essa é a solução para tais problemas ambientais.


Sem dúvida, essa nova maneira de desenvolver produtos traz muitos benefícios, mas utilizar a água de maneira eficiente não é tão óbvio quanto parece. Além da conscientização por parte das empresas, também há uma grande necessidade de educar o consumidor sobre as melhores práticas de uso desse recurso natural tão precioso.



ÁGUA EM COSMÉTICOS É RUIM? NÃO SERVE PARA NADA?


Mito 1: água só serve para reduzir custo


Vamos começar por um dos principais argumentos apresentados pelas marcas e revistas que abordam a questão da presença de água em um produto cosmético: a grande maioria deles afirma que a única finalidade da água é diluir um produto e, assim, reduzir custos de produção, aumentando as margens de lucro.


Se por um lado é verdade que a água reduz o custo do produto, por outro, a escolha dela em uma formulação não costuma ser por esta razão, mas sim por melhorar o desempenho geral de um produto, facilitando sua aplicação, proporcionando atributos sensoriais mais prazerosos e, especialmente, favorecendo a performance, por ser um veículo que carreia muitos nutrientes e vitaminas fundamentais para a pele. E como todos sabemos, nosso corpo precisa da água para sobreviver, nós não conseguimos viver apenas de produtos gordurosos, como ceras, óleos e manteigas, embora eles sejam igualmente vitais, como nós já falamos nessa matéria.


Ainda tem mais algumas funções essenciais que somente a água consegue cumprir, como limpeza e hidratação por umectação, além de entregar muitos benefícios promovidos por ativos que possuem melhor solubilidade nela, tais como ácido ascórbico (vitamina C na forma pura), niacinamida (vitamina B3), D-pantenol (pró- vitamina B5) e muitos peptídeos e ácidos, por exemplo, substâncias altamente eficazes que tratam todo tipo de problema de pele, como manchas, rugas, acne, irritação, ressecamento, etc.


Mito 2: água dilui o produto e isso é ruim


Outro ponto é o requisito de diluição, que nem sempre é ruim, pois muitos ingredientes necessitam ser diluídos para não agredir a pele, caso dos ácidos e das vitaminas C e B3, que não devem ser aplicados puros e ou em concentrações muito elevadas, pois podem causar irritações e sensibilizações severas.


Pureza nem sempre é sinônimo de eficácia, afinal, a concentração certa é um fator determinante na equação de cuidados com a pele. A frase ‘quanto mais melhor’, nem sempre vale aqui.

Mito 3: produtos sem água são mais suaves para a pele


Produtos sem água também podem conter substâncias irritantes, e na realidade isso acontece muito mais do que você imagina. Muitos cosméticos anidros (sem água) também contém conservantes, especialmente os que serão utilizados durante o banho e terão contato direto com água, pois isso já é suficiente para promover contaminação.


Produtos sem água também não estão livres de emulsificantes, surfactantes, corantes e fragrâncias, sintéticas ou naturais e, portanto, podem oferecer os mesmos riscos de sensibilização que os produtos com água, bons exemplos são os shampoos e condicionadores em barra, que costumam ter todos esses ingredientes em suas composições.


Mito 4: todo produto sem água é livre de embalagens plásticas


Também não são todos os cosméticos sólidos que podem livrar-se das embalagens, já que há muitos produtos que, apesar de serem waterless, ainda precisam deste item, caso dos batons, desodorantes, maquiagens e protetores solar em formato stick, por exemplo, com os quais o contato direto com as mãos não é recomendado, a fim de evitar contaminações.


E aqui é importante deixar claro que, embora a ausência de água em um produto dificulte a contaminação, ela não extingue por completo essa possibilidade. A própria umidade ambiente já pode ser suficiente para a proliferação de microrganismos, ainda mais em produtos ricos em insumos naturais, que servem de fonte de alimento para esses micróbios.

Há ainda mais uma consideração: muitas vezes até mesmo os formatos em barra, que dispensam embalagens plásticas primárias fornecidas pelo fabricante, ainda podem necessitar de outras embalagens para armazenamento, como as saboneteiras e porta shampoos e condicionadores sólidos.

Nestes casos, é muito importante que nós consumidores façamos escolhas mais conscientes e optemos por materiais mais sustentáveis, como o alumínio, já que as de cerâmicas, argilas e madeiras, por exemplo, dificultam o transporte desses produtos, pois podem se quebrar e, por serem bastante pesadas, aumentam a pegada de carbono produzida nessa locomoção, podendo ser sendo ainda mais prejudicial do que os produtos com água.


Mito 5: todo produto sólido é mais concentrado


Isso também não é verdade, pois a presença de um ativo ou substância funcional, como as manteigas vegetais e os agentes de limpeza (tensoativos), por exemplo, nem sempre conseguem, sozinhos, promover a consistência ideal do produto.


No caso de produtos sólidos é muito comum (e necessário) o uso conjunto de ceras que, além de funcionarem como diluentes graxos, também são fundamentais para atingir um desempenho superior, uma dureza e suavidade adequadas, pois, novamente, usar um produto muito concentrado nem sempre é saudável.

Sabonetes e shampoos, por exemplo, independente de estarem na forma líquida ou sólida, que tenham concentrações muito elevadas de tensoativos, costumam ser extremamente agressivos para a pele e os cabelos, removendo em excesso a hidratação natural e causando ressecamento e irritações.



E QUANTO AO IMPACTO AMBIENTAL?


Foto de Ron Lach no Pexels

Como já dissemos acima, qualquer produto sólido para o qual seja possível dispensar a embalagem plástica, poderá ser melhor para o meio ambiente, pois gerará menos lixo de difícil degradação na natureza.


Ainda assim, generalizar não é o ideal, pois um produto sem água pode nem sempre ser a melhor opção quando se pensa em impactos ambientais.


Muitas vezes um produto sem água na formulação, requer o uso de uma quantidade grande de água durante o processo de fabricação, é o caso dos produtos sólidos ou pastosos compostos por ceras e manteigas, como batons, pomadas, balms, shampoos e condicionadores em barra e outros produtos em formato bastão, pois requerem aquecimento para serem derretidos, processados e envasados e, normalmente, o veículo utilizado para esse aquecimento é a água, que não é reaproveitada e vai diretamente para o esgoto.


Além do processo de fabricação, também precisamos considerar um fator que a maioria de nós se esquece: a forma como nós consumidores utilizamos a água para o enxágue de alguns cosméticos como shampoos, sabonetes e demaquilantes, por exemplo.

O que você acha que gasta menos água: limpar o rosto com um demaquilante à base de óleos e depois enxaguar, ou usar uma água micelar que dispensa a etapa do enxágue?


Em termos de economia de água, certamente a água micelar leva a melhor, pois toda a água usada no processo de fabricação do produto está contida na fórmula (já que é um produto que, geralmente, não requer aquecimento em seu processo), da qual você vai usar apenas alguns poucos mililitros, sem a necessidade de um enxágue posterior, que poderia gastar até alguns litros de água.


Há também a questão da forma de uso dos produtos sólidos, que alega-se durar mais do que um produto líquido, mas isso é muito relativo, pois tudo depende da forma como cada pessoa vai usar os produtos. Muita gente consome produtos em barra, sejam sabonetes ou shampoos, em tempo mais curto do que suas versões líquidas.



CONSCIENCIA NO USO E NA ESCOLHA, ESSE É O SEGREDO


Com isso você pode perceber que não importa se um produto de beleza contém água ou não em sua formulação, é praticamente impossível ser 100% livre dela. No entanto, isso não significa que não devemos adquirir ou criar produtos sem água, muito pelo contrário. Sempre haverá espaço e necessidade dos produtos waterless no mercado, pois como já mostramos acima, também possuem vantagens tanto para o meio ambiente, quanto para nossa pele.


Dessa maneira, fica mais fácil perceber que a solução, em termos de sustentabilidade e economia de água, não é simplesmente livrar-se da água do produto, mas é buscar avaliar toda a cadeia que envolve sua criação, desde a escolha dos ingredientes naturais - que podem consumir muita água para seu cultivo, caso do abacate e seus derivados - passando pelo transporte, eficiência do processo fabril, forma de uso, escolha das embalagens e até o destino final destas, se poderão ser reutilizadas ou recicladas, por exemplo. E foi em tudo isso que nós pensamos, quando criamos nosso Sérum Bioactive Maracujá.


A boa notícia, então, é: você não precisa deixar de usar aquele tônico, água micelar ou hidratante de que você tanto gosta, pois eles podem estar contribuindo tanto quanto, ou até mais, com a sustentabilidade do que outros produtos livres de água em sua composição.


Informe-se, converse com suas marcas preferidas. Escolha com consciência.


 

Esta é uma matéria que tem o objetivo apenas de desmistificar e fazer refletir sobre o uso sustentável de água em cosméticos. Não se trata de uma comparação de eficácia entre produtos com e sem água, pois ambos podem ser excelentes ou muito ruins, tudo depende da formulação e de toda a cadeia produtiva. Nossa sugestão? Tenha os dois tipos, desde que os fabricantes se importem com você e o meio ambiente. Equilíbrio é tudo na vida.



REFERÊNCIAS:

https://cetesb.sp.gov.br/aguas-interiores/informacoes-basicas/tpos-de-agua/o-problema-da-escasez-de-agua-no-mundo/

https://www.un.org/en/global-issues/water



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