Sabonetes 100% naturais não são o melhor para a sua pele
- 29 de jan. de 2020
- 6 min de leitura

Você também acha que tudo que é 100% natural é sempre melhor e mais saudável para sua pele? Então é muito importante que você leia nosso artigo, porque não é bem assim que as coisas funcionam.
Nessa crescente tendência de naturalização de todas as coisas, somos levados a acreditar que qualquer coisa classificada como natural ou derivada natural, é sempre melhor para nossa pele ou corpo, masa realidade não funciona dessa maneira, e um dos exemplos disso é o clássico sabão ou sabonete natural.
Este produto, por ser um item básico de limpeza e por ter um custo mais acessível, dentre a gama de cosméticos naturais, tem sido amplamente produzido com a promessa de solucionar todos os nossos problemas de pele e de sustentabilidade, mas será que esse pequeno item de beleza é capaz mesmo de resolver essas questões?
Vamos falar mais sobre isso adiante, começando pela ação dele junto à nossa pele.
O QUE É, OU, DO QUE CONSISTE UM SABONETE/SABÃO?
Sabão e sabonete são exatamente a mesma coisa e são compostos, basicamente, pelos mesmos ingredientes. Formalizou-se que sabão tem um proposta mais rústica, em pedaços maiores, com fórmula mais simples sendo, portanto, direcionado mais para o uso como saneante, em limpeza doméstica ou de qualquer outro ambiente. Por sua vez, o sabonete, ficou classificado como um sabão fino, com estética mais bonita, perfumação mais sofisticada e com a adição de ingredientes com funções de cuidados com a pele.
De acordo com o dicionário Priberam (2026), da língua portuguesa, e com os registros químicos de fabricação através da história, sabão/sabonete é:
“um produto resultante da transformação de uma substância gordurosa por um álcali que serve para branquear roupa, para lavar e desengordurar”.
Essas substâncias gordurosas nada mais são do que sebo animal, manteigas ou óleos vegetais, e o tal álcali, nada mais é do que soda (hidróxido de sódio) - o componente alcalino mais utilizado na fabricação desses produtos - ou algum outro composto de características similares à da soda, como o hidróxido de cálcio ou potássio.
Os produtos da reação química desses dois compostos (gordura + soda) são a glicerina, um poderoso agente umectante e hidratante, e uma outra classe de substâncias conhecida como surfactante ou tensoativo, o sabão de fato, o ingrediente que vai realmente fazer a limpeza e remover a sujeira do corpo ou de qualquer outra superfície.
Nós já explicamos mais detalhadamente o mecanismo de ação dos surfactantes (sabões ou agentes detergentes) em nosso artigo que aborda como limpar a pele corretamente. Se vc não leu, clique aqui, pois é muito importante que você entenda esse processo, vai te ajudar a ter uma rotina de cuidados muito mais efetiva e, consequentemente, alcançar uma pele bem mais bonita e saudável.
QUAL É O PROBLEMA DO SABÃO PARA A MINHA PELE?

A razão de um sabonete em barra, seja ele natural ou não, não ser muito bom para a nossa pele é justamente a presença da reação química com álcalis fortes em elevadas concentrações.
"Mas por que utilizar um ingrediente nocivo como esse na fabricação de sabonetes?"
Porque os sabões derivados desses compostos limpam melhor a gordura, produzem mais espuma e resultam em barras mais duras, resistentes e práticas de usar. Além disso, seu baixo custo de fabricação ajuda a tornar o produto mais acessível, características que costumam ser muito valorizadas pelos consumidores (Salazar, 2025).
Um sabão/sabonete resultante desse processo clássico e ancestral da saboaria artesanal natural ou industrial, mesmo passando por longos processos de cura, para garantir que toda a soda seja completamente reagida para reduzir a agressão à nossa pele, ainda possui pH em torno de 10 de acordo com Salazar (2025), o que é considerado muito alto para os padrões da pele humana, que giram em torno de 4,7 a 5,5 (Schmid-Wendtner & Korting, 2006).
Com isso, quando utilizamos um sabonete com essas características para lavar a nossa pele, causamos um significativo desequilíbrio das funções naturais orgânicas cutâneas, além de prejudicar a flora bacteriana natural que protege esse órgão.
Com o desequilíbrio da flora epidérmica, muitos microrganismos bons e de defesa do nosso corpo são eliminados, deixando espaço para que os patogênicos possam se proliferar, aumentando os riscos de contaminações e infecções. Além disso, a ação de limpeza do sabão alcalino é tão potente que remove até mesmo boa parte do nosso manto ácido natural, tão rico em lipídios e fatores de hidratação, os principais responsáveis pela saúde, equilíbrio e maciez da nossa pele.
Dessa maneira, a pele se torna bastante ressecada, favorecendo o aparecimento de rugas, sinais de envelhecimento e microfissuras que facilitam a entrada dos microrganismos prejudiciais, além de, sem proteção, estar mais vulnerável ao surgimento de alergias e irritações.
EXISTE ALGUM BENEFÍCIO NO USO DESSES SABONETES?
Uma das vantagens principais de um sabonete natural é a fato de a glicerina não ser removida de sua composição, o que normalmente não acontece com os sabonetes industriais. Além disso, também é costume a adição de óleos e manteigas extras para efeito sobreengordurante.
O alto teor de glicerina e de óleos livres no sabonete são capazes de reduzir sua agressividade à pele, evitando o ressecamento extremo e tornando a limpeza um pouco mais suave. Contudo, isso ainda não é o suficiente para se ter uma pele realmente mais saudável e bonita, já que tanto a glicerina quanto os óleos também são levados embora junto com a sujeira e água do enxágue, pois são sabões com poder de limpeza muito potente.
E QUANTO AOS IMPACTOS AMBIENTAIS?
Outra vantagem, mas nesse caso, especificamente em relação aos sabonetes de origem vegetal é a questão da sustentabilidade e da crueldade animal.
Sabonetes compostos por ingredientes derivados de plantas, ultilizam recurso de fontes renováveis, causando impacto ambiental consideravelmente menor em relação ao uso de compostos de origem animal, que possuem uma cadeia produtiva altamente poluente e devastadora aos ecossistemas florestais e aquáticos. Ainda assim, isso não é uma regra, pois a extração vegetal exploratória pode ser tão prejudicial quanto a utilização de recursos animais ou sintéticos.
Tomemos como exemplo o caso do óleo de palma, exaustivamente utilizado em todas as áreas de indústria, especialmente a de sabões e sabonetes, devido ao seu baixo custo e versatilidade. A extração de modo indevido da palma vem causando um profundo impacto ambiental, especialmente nas florestas da indonésia, devastando matas virgens e causando a morte em massa de animais, impactando toda a cadeia alimentar, e assim, desbalanceando o ecossistema (European Parliament, 2017).
Atualmente já existem fabricantes sérios que extraem o óleo de palma de maneira sustentável - comprovados pela certificação RSPO em suas matérias-primas - e com respeito ao meio ambiente, contudo os custos são mais elevados, então fique de olho na filosofia e comunicação das marcas que você gosta.
Os prejuízos, porém, não ficam apenas no desmatamento, a industrialização e processamento de qualquer recurso natural, se não realizada com cuidado, também pode gerar resíduos contaminados, além de originar uma matéria-prima rica em impurezas e de baixa qualidade.
Portanto, veja, que a palavra natural não é sempre sinônimo de saúde. Até porque, um sabonete desses, também não pode ser considerado 100% natural, já que necessita de um forte reagente químico sintético para que possa ser fabricado.
Recursos naturais vegetais são maravilhosos, mas tudo deve ser pensado com inteligência.
ENTÃO QUAIS SÃO OS REQUISITOS DESEJÁVEIS EM UM SABONETE?
Bem, sabemos que é praticamente impossível não utilizar algum produto para limpeza de nossa pele, especialmente no Brasil, um país quente, úmido e que possui uma forte tradição cultural em banhos. Poucas sensações são mais revigorantes do que a de um banho relaxante, perfumado e recém tomado após um dia cansativo.
Nesse caso, o mais importante é escolher produtos que promovam uma limpeza suave, com pH equilibrado e agentes de limpeza delicados e sustentáveis. Afinal, a sustentabilidade de um ingrediente não depende de ele ser natural ou sintético, mas de evidências científicas que avaliem seu impacto, como estudos de segurança, análises de ciclo de vida (LCA) e emissões de gases de efeito estufa.
Dessa forma, é possível preservar a hidratação natural da pele e o equilíbrio de sua microbiota, fatores essenciais para manter a barreira cutânea saudável, protegida e macia.
Referências
Schmid-Wendtner, M.-H., & Korting, H. C. (2006). The pH of the skin surface and its impact on the barrier function. Skin Pharmacology and Physiology, 19(6), 297–302. doi.org.
Salazar, J. O. (2025). Analytical optimisation of eco-friendly soap production using hyperspectral imaging and chemometric modelling of physicochemical properties. Microchemical Journal, 215, 1–10. doi.org.
Roundtable on Sustainable Palm Oil. (2026). Certificação RSPO. https://rspo.org/pt/as-an-organisation/certification/
European Parliament. (2017). Report on palm oil and deforestation of rainforests (Report No. A8-0066/2017). https://www.europarl.europa.eu/doceo/document/A-8-2017-0066_EN.html#_section2.
Priberam Informática. (2026). Sabão. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. https://dicionario.priberam.org/sab%C3%A3o




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