Microbioma da pele, uma nova e revolucionária dimensão no skincare
- 16 de dez. de 2020
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Atualizado: há 5 dias

Seu reflexo no espelho mostra apenas a pele nua, mas o que seus olhos não enxergam são os bichinhos microscópicos que fazem dela sua moradia. E são muitos, trilhões deles! Sim, este é o número estimado: trilhões de bactérias, fungos, vírus e até ácaros vivem felizes e em perfeita harmonia com sua pele. São os microrganismos do bem. E não é que a presença deles seja importante, ela é vital. Sem eles nossa saúde e beleza não se sustentam.
O QUE É MICROBIOMA?
Microbioma é o conjunto de microrganismos que habita nossa pele e interage de forma harmoniosa com as células, contribuindo para a manutenção da saúde e do equilíbrio.
Quando esse equilíbrio é afetado, ocorre uma alteração na composição dessa comunidade de microrganismos, processo conhecido como disbiose, favorecendo, em alguns casos, a proliferação de bactérias potencialmente patogênicas. É nesse cenário que problemas como acne, dermatites, caspa, sensibilidades cutâneas e até o envelhecimento precoce da pele podem estar associados ao desequilíbrio da microbiota.
A descoberta e o estudo da relação desses microrganismos com nosso organismo têm revolucionado a forma de pensar da medicina e da nutrição. Afinal, sobre a microbiota intestinal e os benefícios dos alimentos fermentados para a saúde, você provavelmente já ouviu falar bastante, seja por meio dos probióticos, dos leites fermentados com lactobacilos ou da kombucha.
E, como não poderia deixar de ser, esse conhecimento também se estendeu aos cuidados com a pele, já que nosso maior órgão desempenha um papel fundamental como barreira de proteção do organismo, além de influenciar diretamente nossa qualidade de vida e bem-estar. Afinal, sentir-se bem com a própria aparência também faz parte da saúde.
Cada região do corpo possui uma microbiota característica, com diferentes populações de microrganismos adaptadas às suas condições específicas. Fatores como temperatura, umidade, produção de sebo e ventilação influenciam essa composição. Assim, a microbiota das axilas é bastante diferente daquela encontrada no rosto ou no couro cabeludo, por exemplo.
O que as pesquisas têm demonstrado é que, de modo geral, uma microbiota diversa e equilibrada está associada a uma pele mais saudável. Por isso, preservar esse ecossistema é um dos pilares dos cuidados modernos com a pele.
QUAL É A FUNÇÃO DO MICROBIOMA CUTÂNEO?
Auxiliar na defesa da pele, regular processos metabólicos e contribuir para a manutenção de um ambiente saudável para o funcionamento adequado desse órgão. Essas são algumas das principais funções do microbioma cutâneo.
As bactérias benéficas são capazes, por exemplo, de estimular respostas específicas do sistema imunológico presentes na pele, inibindo a proliferação de muitos microrganismos potencialmente causadores de doenças. Além disso, esses microrganismos também participam da regeneração de feridas e lesões por meio da modulação da resposta inflamatória, favorecendo o processo natural de reparação e cicatrização dos tecidos.
Sabe-se também que a colonização da pele por microrganismos logo após o nascimento desempenha um papel fundamental no desenvolvimento do sistema imunológico do bebê. Esse primeiro contato contribui para o estabelecimento da tolerância imunológica e para a maturação das células de defesa, ajudando a proteger o organismo ao longo da vida.
Outro bom exemplo da importância do microbioma cutâneo é a atuação da bactéria Cutibacterium acnes (anteriormente denominada Propionibacterium acnes). Essa espécie faz parte da microbiota normal da pele e desempenha funções importantes na manutenção do equilíbrio cutâneo. Entretanto, quando ocorre um desequilíbrio da microbiota associado a outros fatores, como a alterações na produção de sebo, obstrução dos poros e resposta inflamatória exacerbada, determinadas cepas dessa bactéria podem contribuir para o desenvolvimento da acne.
Por outro lado, em condições de equilíbrio, a Cutibacterium acnes participa da modulação da resposta inflamatória e da manutenção da função de barreira da pele, por meio da interação com os queratinócitos, células predominantes da epiderme.
Por isso, hoje se entende que o objetivo dos tratamentos para acne não deve ser eliminar completamente essa bactéria, mas sim restabelecer o equilíbrio da microbiota cutânea. A redução indiscriminada dos microrganismos da pele por meio de ativos bactericidas muito agressivos pode comprometer a barreira cutânea, favorecendo irritação, ressecamento e a colonização por microrganismos oportunistas, como algumas espécies do gênero Staphylococcus.
Uma pele fragilizada por tratamentos muito agressivos pode ser observada, por exemplo, em pessoas submetidas ao uso de retinoides tópicos ou de isotretinoína oral, que frequentemente apresentam ressecamento intenso, descamação e fissuras, especialmente nos lábios. Embora esses efeitos colaterais estejam relacionados principalmente à redução da produção de sebo e às alterações na barreira cutânea, eles também podem favorecer mudanças na composição da microbiota da pele.
UM NOVO OLHAR SOBRE OS CUIDADOS COM A PELE
Atualmente, a medicina tem compreendido que o surgimento de doenças de pele nem sempre está relacionado apenas à proliferação de determinados microrganismos. Na verdade, muitas vezes ocorre primeiro uma alteração no funcionamento da pele, modificando as condições do microambiente cutâneo, como pH, hidratação, produção de sebo e disponibilidade de nutrientes, e favorecendo o crescimento de espécies ou cepas mais adaptadas a essas novas condições. Esse desequilíbrio tem sido associado ao desenvolvimento ou agravamento de doenças como acne, rosácea, dermatite atópica e psoríase, entre outras.
Dessa forma, torna-se fundamental investigar a origem desse desequilíbrio, que pode estar relacionada a diversos fatores, como predisposição genética, alterações hormonais, doenças sistêmicas, hábitos de vida e até fatores emocionais, como estresse e ansiedade, os quais podem influenciar direta ou indiretamente a saúde da pele.
Com essas novas descobertas, hoje sabemos que tudo o que entra em contato com a pele também interage, de alguma forma, com seu microbioma.
Por isso, o desenvolvimento de novos cosméticos tem buscado, cada vez mais, preservar esse delicado equilíbrio, em vez de simplesmente eliminar os microrganismos presentes na pele. Essa abordagem tende a reduzir os efeitos colaterais frequentemente associados a tratamentos mais agressivos, como irritação, ressecamento e comprometimento da barreira cutânea, fatores que podem contribuir para o envelhecimento precoce da pele. Por essa razão, peles sensíveis, sensibilizadas e maduras costumam ser especialmente beneficiadas por produtos formulados com esse conceito.
COMO PRESERVAR O MICROBIOMA

Apesar do número imenso e da grande diversidade de microrganismos que possuímos na pele, esse equilíbrio é bem delicado e facilmente afetado pelos nossos hábitos e estilo de vida.
Com o passar dos anos, a composição do microbioma cutâneo sofre alterações naturais, tornando-se, em muitos casos, menos diversa e menos equilibrada. Essas mudanças estão associadas ao envelhecimento da pele, ao enfraquecimento da função de barreira e a uma maior suscetibilidade a infecções e outros distúrbios cutâneos.
Além disso, fatores como alimentação, exposição ao sol, uso de medicamentos e até mesmo a limpeza diária da pele podem influenciar esse equilíbrio. No caso da higienização, como realizamos esse processo diversas vezes ao dia, especialmente nas mãos, fica fácil entender a importância de utilizar agentes de limpeza suaves e com pH compatível com o da pele.
Isso se explica porque a grande maioria dos sabonetes em barra tradicionais apresenta pH alcalino, geralmente entre 9 e 10, bastante diferente do pH fisiológico da pele, que varia em torno de 4,5 a 5,5, ligeiramente ácido. Essa acidez natural contribui para a manutenção da função de barreira e para o equilíbrio da microbiota cutânea. Além disso, sabonetes muito alcalinos tendem a remover de forma mais intensa os lipídios naturais da pele e alterar temporariamente sua microbiota, favorecendo o ressecamento e, em algumas pessoas, estimulando o aumento compensatório da produção de sebo, conhecido como efeito rebote.
Por isso, sabonetes suaves costumam ser opções mais adequadas para a limpeza diária. Além de removerem impurezas e reduzirem a carga de microrganismos potencialmente patogênicos, eles preservam melhor a barreira cutânea, minimizam alterações importantes na microbiota e ajudam a manter a hidratação natural da pele.
São justamente essas as razões pelas quais insistimos em dizer que a limpeza é um dos passos mais importantes da rotina de skin care. Quando realizada corretamente, com produtos adequados para cada tipo de pele, ela contribui para manter o equilíbrio cutâneo e pode, inclusive, reduzir a necessidade de utilizar diversos produtos para corrigir problemas causados por uma higienização inadequada. Além disso, uma pele com a barreira cutânea preservada tende a responder melhor aos cuidados aplicados nas etapas seguintes da rotina.
Além da limpeza, também vale a pena buscar produtos formulados com ingredientes pré, pró e pós-bióticos, pH fisiológico e ativos suaves que contribuam para a manutenção da barreira cutânea. Da mesma forma, produtos contendo antibióticos, ácidos, óleos essenciais ou extratos vegetais forte e em altas concentrações devem ser utilizados com critério, pois, embora possam ser muito eficazes em determinadas situações, também podem alterar significativamente a microbiota da pele. Sempre que possível, esses tratamentos devem ser realizados com orientação de um dermatologista.
Preservar o microbioma cutâneo é preservar a saúde, a resistência e, consequentemente, a beleza natural da pele.
REFERÊNCIAS:
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